De moto pelo teto do mundo

Brasileiros conhecem a Índia com motos locais, rodando pelas fantásticas estradas da Cordilheira do Himalaia




Em meados de abril de 2014 recebi uma mensagem do amigo Rafael Barata me convidando para uma viagem de moto pelo norte da Índia, onde percorreríamos algumas das estradas mais incríveis do mundo na Cordilheira do Himalaia. Achei a ideia maluca, principalmente por causa dos custos, que calculava estarem fora da minha realidade financeira. Mas depois de trocarmos mais algumas mensagens, estudarmos o assunto e levantar as principais despesas que teríamos (passagens aéreas e aluguel das motos) descobri que a viagem seria viável e que poderíamos fazê-la durante minhas férias do trabalho por um custo muito abaixo do que imaginava.

Topei o desafio e passamos os meses seguintes estudando o clima e as estradas, definindo rotas, escolhendo os lugares que queríamos conhecer, equipamentos dos quais precisaríamos e as opções de hospedagem. Preparamo-nos física e mentalmente, tomamos vacinas e providenciamos os vistos e documentos para a viagem. Com a ajuda do Ankur, um amigo motociclista indiano que conhecemos pela internet, alugamos duas Royal Enfield, uma modelo Classic e outra modelo Bullet, ambas de 350cc, com estilo clássico e desenho parecido com as motocicletas fabricadas nos anos 1960.

No início de setembro passado, depois de 17 meses de planejamento, embarcamos em um avião em Belo Horizonte (MG), com escalas em Guarulhos (SP) e Dubai até desembarcarmos em Nova Déli, capital da Índia, onde as motos estavam prontas nos esperando. Depois de enfrentarmos o trânsito maluco das ruas e avenidas da cidade, finalmente iniciamos nossa jornada pelas estradas indianas. Passamos pelos estados de Déli, Chandigarh e Himachal Pradesh e chegamos a uma cidade chamada Manali, considerada a porta de entrada para o Himalaia e que fica a menos de 300 km do Tibete.

A partir dali subimos as montanhas por estradas estreitas, cheias de curvas e tendo que tomar muito cuidado com os exóticos, coloridos e lentos caminhões indianos e também com inúmeros animais que a todo o momento encontrávamos sobre a pista, como vacas, macacos e até um dromedário. Além disso, sempre que nos aproximávamos das cidades e vilas tínhamos que compartilhar a estrada com pessoas, bicicletas, riquixás (carroça puxada por pessoa), pequenas motos – com até quatro pessoas, nenhuma usando capacete - e tuk-tuks (triciclo coberto para transporte de passageiros), sem contar os carros e caminhões.

Conhecemos monumentos budistas tibetanos inseridos em paisagens deslumbrantes, sentimos calor e frio intensos, pegamos chuva, percorremos estradas em ziguezague pelas encostas de montanhas que pareciam não acabar, levando-nos a altitudes onde a exposição à baixa pressão e falta de oxigênio dificultava respiração e movimentos.

Zona militarizada

Chegamos ao estado indiano de Jammu & Kashmir, onde está o Vale da Caxemira, uma região fascinante que há décadas é disputada por Índia, China e Paquistão devido a questões econômicas e religiosas. Apesar da maioria dos hindus e muçulmanos que encontramos durante a viagem manter uma convivência pacífica, o estado de constante tensão entre os países faz com que a região seja uma das mais militarizadas do mundo. Estivemos a apenas 18 km da fronteira com o Paquistão, mas não saímos da Índia.

Enquanto percorríamos as estradas da região tivemos que passar por inúmeras barreiras de controle do exército e apresentar nossos documentos várias vezes em curtos percursos, sem contar um comboio militar com centenas de veículos que encontramos em uma estrada estreita e cheia de curvas. Todos os contratempos nos fizeram atrasar a viagem e algumas vezes chegar à noite aos destinos. Apesar de todo o receio de uma guerra ou atentado terrorista, fomos bem recebidos por todos que encontramos durante a viagem, compartilhamos a mesa com hindus e muçulmanos e até pernoitamos na casa destes, oportunidade para conhecer um pouco de seus peculiares hábitos e costumes. Outro grupo religioso que nos chamou a atenção foram os sikhs, exóticos aos nossos olhos por causa dos turbantes, longas barbas e roupas, que encontramos em quase todos os lugares onde fomos. São a maioria da população do estado do Punjab.

Algumas das estradas que percorremos eram muito mais difíceis do que prevíamos porque eram íngremes, cobertas com cascalho, pedra, areia e lama ou então eram cortadas por riachos formados pelo degelo da neve, que desciam do alto das montanhas, fazendo-nos demorar muito mais tempo para chegar ao destino do que havíamos planejado. Um dia gastamos nove horas para percorrer com apenas 51 km. Além da estrada, tivemos ainda raios de uma das rodas quebrados, pneu furado e várias quedas, daquelas que ocorrem com a moto devagar, quase parando, mas inevitáveis por causa das dificuldades impostas pelo ambiente.

Boa parte do roteiro acompanhava o leito de um rio que corria por estreitos vales cercados por imensas montanhas. A estrada cortava as faces das montanhas, às vezes próximas ao rio e às vezes centenas de metros acima de seu leito, fazendo com que em um dos lados víssemos imensas rochas e do outro o profundo precipício. Em alguns trechos a estrada era literalmente cortada na rocha, como uma caverna, mas com um dos lados aberto para o despenhadeiro, descortinando um cenário ao mesmo tempo grandioso e desafiador, que nos impunha assombro, respeito e deslumbramento.

A noite nas montanhas era fria e a aridez ao redor compensada pela visão de um céu limpo, sem nuvens, poluição ou claridade das luzes das cidades. Não havia nada que pudesse ofuscar o brilho das infinitas estrelas que cintilavam sobre nossas cabeças. Difícil encontrar adjetivos que possam descrever o que encontramos, conhecemos e sentimos durante esta viagem.

Andamos pelas ruas de Nova Déli com seu comércio movimentado, vimos milhares de pessoas exóticas e experimentamos a comida indiana temperada e picante, rica em ervas e vegetais, de aroma marcante, grande diversidade de ingredientes e receitas. Conhecemos alguns dos monumentos mais significativos daquele país, tais como o Red Fort e Agra Fort, ambos dotados de grossas paredes cobertas com arenito vermelho, que lhes dá uma cor forte e característica. Conhecemos também parques, praças e outros monumentos históricos como o Índia Gate e o Humayun Tomb. Mas o principal marco da nossa viagem foi a visita que fizemos ao Taj Mahal, o mais famoso mausoléu e monumento do planeta, construído por um imperador descendente te Gengis Khan em homenagem à sua esposa preferida, morta ao dar à luz. Um passeio que nos emocionou não só pela beleza do lugar, seu valor histórico e artístico, mas também pela mística que o envolve.

Desde o início da viagem nos surpreendemos com a diversidade racial, religiosa, étnica, linguística, social, econômica e política do país, que tem quase 1,3 bilhão de habitantes. O povo, suas crenças, hábitos e costumes nos encantaram. Apesar das dificuldades que enfrentamos na estrada, a Índia é um país incrível para uma viagem de moto.

 

 

Fonte: http://ppmotorcycle.com.br/